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- A minha avó Isabel, por Odília Guerreiro

Já tinha pensado escrever um post alusivo a esta fotografia da minha bisavó Isabel, responsável pelo meu segundo nome. No entanto nunca cheguei a conhecê-la, por isso aqui fica um relato de quem a conheceu bem:

Sempre a conheci assim, de negro vestida. Enviuvou antes de eu nascer e, posteriormente, perdeu o filho mais novo, o meu tio Vanderdil, com 35 anos de idade. Cem anos vivesse que sempre de preto se vestiria. O preto simbolizava a dor, a ausência, a saudade dos que haviam partido...marido e filho.Quando era miúda adorava dormir com a minha avó, bem aconchegada a ela, aquecidas com as mantas de montanheco/de pura lã de ovelha e tecidas lá em casa no velho tear do meu avô Baltasar. Lembro-me dos Invernos ventosos, da chuva a bater nos telhados, das histórias de vida que me contava enquanto o sono não chegava.Contava-me que o meu avô assinava um jornal que chegava ao monte pelo correio. Depois de passada a palavra de que o jornal chegara, toda a vizinhança confluía para o Castelo (era assim que se chamava a zona mais alta do monte) onde os meus avós moravam.Mais tarde, seria outro o meio de comunicação que traria as pessoas ao castelo... um rádio comprado pelo meu pai, receptor de notícias faladas, sinal da evolução dos tempos.
Quando, anos mais tarde, fomos morar para Alcoutim e regressávamos ao monte, em visita, lembro-me de a ver, sempre, no canto do muro do quintal esperando por nós... Quando o carro passava a portela, os seus excelentes ouvidos davam conta e ela apressava-se a ir ao sítio onde a minha mente, mil vezes a visualiza... para ver se seriam os seus. Guardo esta imagem como se fosse ontem...

Publicado por Odília Guerreiro in http://moura-do-castelo-velho.blogspot.com/

- O velho eucalipto



Esta foto, tirada também pelo meu avô na década de 60, mostra o seu carro debaixo do velho eucalipto que, ainda hoje, se encontra em frente à casa da Tia Etelvina. No entanto, não consigo identificar as pessoas, apenas a Florentina do lado direito da foto, de chapéu. Quem seriam os outros dois?

- Sentadas no paial

Alcaria Alta, década de 60.
Sentadas no paial da casa, a aproveitar a sombra da tarde...
Da esquerda para a direita: a professora regente de Alcaria Alta e três gerações de mulheres da minha família: a minha bisavó Isabel, a tia Maria Teixeira, sua filha, e a prima Florentina, sua neta.
Foto tirada pelo meu avô, João Baltazar Guerreiro, respectivamente filho, irmão e tio das senhoras.

- A roca de fiar


Descobri recentemente, em casa da minha avó, uns negativos antigos de fotos tiradas pelo meu avô, nas décadas de 50 e 60. São, na sua maior parte, fotografias de Alcoutim e de Alcaria Alta, algumas das quais nunca tinham sido reveladas.
Esta foto é de uma mulher que morava em Alcaria Alta e que trabalhava numa actividade muito comum na altura, a indústria (ainda rudimentar) têxtil. Estava a fiar a lã numa roca, instrumento utilizado para torcer a lã e transformá-la nos fios que depois seriam utilizados nos teares para tecer mantas, cobertores, casacos e outras peças.
A minha avó conta que as mulheres, tal como a da fotografia, andavam pela rua, conversando com as vizinhas, enquanto fiavam. Seria sem dúvida um trabalho bem mais animado do que se fosse feito em casa...
Lembro-me do meu avô me contar que o seu primeiro trabalho foi tecelão (ainda hoje temos mantas de retalhos e cobertores de lã feitos por ele) e que o seu pai tinha vários teares em casa, onde trabalhavam algumas pessoas do monte e de outros lados. Contou-me também que uma dessas pessoas foi o António Aleixo, o poeta popular. É conhecido o seu ofício de tecelão, à semelhança do seu pai, que terá praticado entre 1912 e 1919, segundo a sua biografia.
Não cheguei a ver teares lá na casa de Alcaria Alta, pelo menos não me lembro. Mas lembro-me de ser pequena e de andar a correr, na casa da prima Claudina, à volta de um tear, com uma neta dela, não sei qual delas, não me lembro o nome... é uma imagem que tenho :)

- Carnaval

Contou a D. Etelvina que no seu tempo havia muitos moços e moças no monte. Cada família tinha quatro ou cinco filhos e eram tempos sempre animados.
No Carnaval, os jovens percorriam as ruas com os tocadores que vinham de fora para a festa. Era costume fazerem-se filhós nesta época festiva, à semelhança das que se faziam pelo Natal, e os tocadores, acompanhados dos moços e moças de Alcaria Alta, seguiam em cortejo pelas ruas do monte, a tocar e a cantar, de casa em casa, e recebiam as filhós que, com o seu mel, com certeza adoçavam e afinavam as gargantas...

- Utilidades de outros tempos

Esta é uma série de algumas fotos tirei em Alcaria Alta, em diversas alturas e em diversos locais, exteriores e interiores. Objectos guardados, outros a céu aberto, todos tiveram a sua utilidade, mas estão, hoje em dia, abandonados, empoeirados e enferrujados pelo tempo...

Um velho forno de lenha comunitário, que pertencia a algumas pessoas que viviam nas suas imediações. Cada dia estava destinado a uma das famílias, que cozia o pão para toda a semana.

Uma velha carroça que terá feito muitos quilómetros pelos montes afora, puxada por animais, carregando as sacas de alfarrobas, azeitonas, amêndoas, figos, uvas e outros produtos tipicamente algarvios.

Uma das várias alfaias agrícolas que se encontram pelo monte, abandonadas pelo fim da agricultura que foi, outrora, a principal actividade da população.

Máquina manual onde se esmagavam as uvas para fazer o vinho. Era só dar à manivela e o "néctar dos deuses" saía puro e líquido.

Rodas de uma carroça que resistiram no tempo...

Uma velha caldeira com o seu alambique de cobre que serviria para fazer aguardente de figo, de medronho e outras.

Potes de cal branca, com a qual são caiadas todas as antigas casas de Alcaria Alta, tal como um pouco por todo o Algarve interior.

Uma grade de garrafas de refrigerante de uma marca que não terá aguentado a concorrência e desapareceu do mercado...

- Actividades de outros tempos



A agricultura e a criação de gado eram, até há uns anos atrás, as principais actividades económicas de Alcaria Alta e os meios de subsistência da população, tal como acontecia um pouco por todo o país.
Hoje em dia, apenas um agricultor subsiste, plantando alguma coisa que "vendido não rende nada", segundo o próprio, e pastando o seu rebanho de ovelhas e algumas vacas.


O Sr. José Martins é, provavelmente, o mais novo habitante de Alcaria Alta e o único em actividade. A população envelhecida já não tem mãos para trabalhar e vive das suas pequenas reformas...
Diariamente, ao final da tarde, ouvem-se por todo o monte os badalos dos seus animais que saem dos currais e vão pastar nas imediações, sempre acompanhados pelos seus cães de guarda.

Lembro-me de ser pequena e de andar pelo monte a brincar, e ver vida por todo o lado: as pessoas no vai-e-vem das hortas, na apanha das amêndoas e azeitonas, a puxar os seus burros, a alimentar os seus porcos, a pastar o seu gado...
Hoje em dia restam umas galinhas e uns pintos, as ovelhas e vacas do sr. José Martins e pouco mais.

E vêem-se as máquinas e alfaias agrícolas abandonadas pelos cantos do monte, enferrujadas pelo tempo...